quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O último dia de um guarda-chuva cor de laranja

Acordei mais cedo que o normal, aqui em Curitiba acredito que sou o melhor amigo do homem, sempre dedicado, sempre à mão, sempre preparado para salvar alguém de um banho fora de hora. Nesta quinta-feira fui parar em outro bairro da capital, e em meio aos grandes prédios e a correria do horário de pico, lá estava o lugar mais bonito da cidade. Escolhi um banco para me acomodar, tenho certeza que meu laranja, cor de laranja, estava deixando o lugar ainda mais alegre.
Em meio a um chuvisco e um sol, não pude deixar de reparar nas pessoas que estavam por lá, uma menina movimentando os dedos compulsivamente na tela do celular -pobre garota-, uma mãe segurando a filha para que a mesma não corresse pela chuva -algumas felicidades poderiam ser mais encorajadas -, e olha, olha agora... o mendigo vindo, caminhado lentamente de um lado, e do outro, o bancário, correndo, ofegante, atrasado para o trabalho. O mendigo senta no banco, apoia o cotovelo no encosto e fecha os olhos, se o seu pensamento está acelerado, eu não sei, mas seu corpo transmite apenas paz. Descendo os olhos um pouco mais, da para ver a feirinha, que linda, toda decorada de ramalhetes de flores do campo e suas cestinhas de morangos, até blueberry eu pude achar - certamente, se guarda-chuva tivesse boca, a primeira fruta que eu comeria, seria uma blueberry.
Ah, como eu poderia imaginar, viver um momento tão belo assim.
Hora de ir.
Vamos para o ponto esperar o ônibus atrasado. 20 minutos. Chegou! O ônibus chegou! Corrigindo: O ônibus quebrado chegou! Agora, em meio a um trovão e um vento, espero o ônibus novo chegar, mas alegrem-se por mim, estava em ótima companhia, uma senhora fazendo piadinhas irônicas sobre o acontecido, o mocinho otimista, o senhor reclamão e duas gurias observadoras. Uma verdadeira aventura de entra e sai do ônibus, desce e sobe escada, pula a poça daqui, pula a enchente dali- confesso que deixei muitas gotas escaparem da minha proteção, mas a energia das pessoas a minha volta era tão contagiante, que todo mundo acabou rindo do "trágico".
Bom, mal sabia eu, aqueles foram meus últimos e mais felizes, momentos de vida. Plec... meu gancho se partiu. O que é de um guarda-chuva sem o seu gancho? E as últimas gotas daquela chuva se escorreram. Adeus.

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